terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Página Popular

Matéria do Jornal Página Popular - Hortolândia - trouxe a análise do jornalista e cientista político André Henrique sobre proposta dos vereadores de Monte Mor de aumentar o número de cadeiras do legislativo para a próxima legislatura. Matéria publicada dia 01/07/2015.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Rede Sustentabilidade: contexto e futuro

CONTEXTO

Os que comemoraram o naufrágio do registro da Rede Sustentabilidade em 2014 agora possuem mais motivos para temê-la. A legenda finalmente conseguiu a aprovação do TSE e nasce numa conjuntura bastante favorável.    

A aprovação do governo Dilma está ao rés do chão. A presidente paga o preço de sua vitória e herda as conseqüências de erros do primeiro mandato turbinados por problemas estruturais internos e conjunturais externos. Desafio grande para um governo que não governa.   

O espetáculo de mediocridade exibido diariamente pela classe política agrava o clima de instabilidade e piora a crise econômica. Sem rumo, a oposição atira no peito da presidente, e acerta a nuca das contas públicas, ao renunciar a seu passado de "responsabilidade fiscal" e votar "pautas bombas". 

Penas flutuam pelos ares a cada "fogo amigo" estampado nas manchetes alimentadas pela guerra entre caciques tucanos. Esse método nivela a classe política por baixo e afasta o cidadão da política. Eis a belíssima contribuição do maior partido de oposição para conter a despolitização.

Os descaminhos do governo Dilma e a Lava Jato estimulam a migração de petistas para o partido de Marina Silva e seus "blue caps". O petismo promove narrativas que subestimam o potencial da crise e colocam seus críticos como partes de um complô golpista. Essa estratégia produz isolamento e não condiz com um partido que disputa corações e mentes numa sociedade com forças heterogêneas.  

Como se nota, o quadro político é fértil para a Rede Sustentabilidade a princípio prosperar. E isso é matéria de análise, não de gosto.

FUTURO

Ainda é cedo para cravar prognósticos decisivos sobre qual será o perfil ideológico da nova legenda em seus primeiros vôos. Há quem diga que ela será o novo PT. Contesto.

A Rede Sustentabilidade não parece disposta a ensejar discursos de ruptura, como PT e PSOL fizeram ao longo dos anos, e isso ameaça mais o PSDB.

A tendência é o partido se apresentar como síntese do que de melhor fizeram petistas e tucanos e como alternativa para consertar o que está errado, sob os seguintes enfoques: manter e aprofundar conquistas sociais da era Lula – sem triscar no pacto social previsto na Constituição de 1988 - e perseguir a estabilidade econômica de FHC, sem romper com o tripé econômico. 

Essa narrativa dificilmente seduzirá os partidos e movimentos sociais da esquerda tradicional, abrindo possibilidades para o PT continuar a ser sua principal referência. O risco maior é do PSDB perder o posto de partido conciliador de classes e queridinho das classes médias tradicionais, sobretudo paulistas.

Aparentemente, no prelúdio, o desafio da Rede sustentabilidade será construir um novo pacto socialdemocrata pós-PT- PSDB, com conciliação de classes e combinando reformas estruturantes com estabilidade econômica, sustentabilidade ambiental e conquistas sociais. Esses princípios estiveram presentes nas campanhas de Marina Silva e são perceptíveis nas falas dos principais mentores intelectuais da ex-ministra. Materializá-los não será moleza.

André Henrique, cientista político e diretor de jornalismo da Rádio Comunicativa, Hortolândia. MTB 0077364/SP

Publicado no Portal NM - 28/09/2015 Leia aqui

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Postura Conservadora

O PT apoiará a candidatura do PSDB à presidência da ALESP, em troca de uns carguinhos "estratégicos", tendo em vista que não teria chance de vencer a base governista, com isso, o partido despreza o potencial dos movimentos sociais e abre mão de criar algo vigoroso politicamente em São Paulo.

O deputado Carlos Gianazzi, do PSOL, irá disputar sozinho para marcar posição, como tem feito em vários temas, como água e educação. Vai daí que o parlamentar foi o mais votado da oposição no estado e o PT tomou uma tunda.  
A educação pública em São Paulo está completamente destruída, a APEOESP ilhada e a classe dos professores desmobilizada. Se o PSDB pouco fez pela educação nestes vinte anos, o PT também pouco fez para mobilizar as forças de esquerda e os professores em torno de uma agenda.

Sem debate, não há ideias. Sem ideias, não há propostas. Sem propostas, não há agenda. Sem agenda, não há mobilização. Não adianta o PT controlar burocraticamente o sindicato dos professores se o mesmo não consegue amealhar adeptos em suas paralisações. Perguntaria o outro: mobilizar-se em torno de quais propostas e forças?

O PT envia uma mensagem muito ruim para as esquerdas ao dar apoio ao PSDB nesta querela pela presidência da casa. Desmobiliza. Ignora o que aconteceu no Paraná há poucos dias e o que vem acontecendo na Grécia e na Espanha. Esconde-se nas tocas do institucionalismo conservador e perde a chance de criar um campo opositor com os blocos sociais insatisfeitos. Os musculosos MTST e MPL estão aí para quê?

O PSDB está há vinte anos no comando do estado e esqueceu que o interior existe quando o assunto é transporte sobre trilhos. As empresas privadas de ônibus oferecem serviços caros e ridículos. A educação pública encontra-se ao rés do chão. Obras do metrô corrompidas e lentas. Falta de água. E mais um trilhão de problemas. Existe um plano de ação articulado das esquerdas, nas ruas e na Assembléia, para criar constrangimentos ao governador? Não.Nem projeto alternativo ao tucano.    

O PT tem medo de ser de esquerda no Estado mais conservador do país. Só perde com isso. Uma coisa é fechar alianças com o centro, outra é se isolar na esfera institucional como se fosse um PMDB. Alckmin agradece. A força do prefeito de São Paulo vem justamente de suas medidas progressistas e nelas moram suas chances de reeleição. O filho de Alexandre Padilha nasceu no SUS. Falta mais Mujica na canjica do PT paulista.

Texto publicado no Portal Novo Momento

Vitória maiúscula

Não. Não se deixe enganar pelas aparências. Nem tudo que reluz é ouro, diria o outro. O resultado foi apertado, entretanto, a vitória de Dilma Rousseff foi maiúscula em face de circunstâncias conjunturais terrivelmente contrárias à candidata do PT. Vamos entender

As manifestações de junho 2013 derrubaram a popularidade de governadores e da presidente. No mês de maio do mesmo ano Dilma contava com aprovação de 60% e venceria segundo as pesquisas em primeiro turno tranquilamente. Com o advento dos protestos, com aparições constantes da presidente para se explicar para um emaranhado que não protestava necessariamente contra ela, num país onde presidente colhe louro e tempestades mesmo sem ter mérito e culpas, a popularidade da presidente caiu pelas tabelas. Depois, aos poucos, voltou aos prumos e fez água novamente devido ao clima negativo pré Copa do Mundo.  

O principal pólo opositor ao governo petista é representado por três ou quatro veículos de comunicação tradicionais de três ou quatro famílias tradicionais. E esses três ou quatro veículos de comunicação tradicionais dessas três ou quatro famílias tradicionais desconstroem Dilma Rousseff desde 2010 quando a mesma era tratada como poste. Os líderes do PSDB e da oposição, pautados por esta prensa, repetiram o mantra por quatro anos, perderam duas vezes seguidas para o poste, merecem ser chamados de quê? 

A prensa opositora conseguiu penetrar não só a tal "classe média branca" mas o senso-comum de pessoas de todas as classes com a veneta de que Dilma e o PT são patrocinadores de roubalheira. O processo do mensalão (pratica, na política, mais usual que bom dia pelas manhãs) e o caso Petrobrás (com tucanos envolvidos até a tampa) foram devidamente instrumentalizados para atingir o PT. Durante a eleição, Veja surfou em informações desencontradas do tal "Petrolão" para pautar Aécio Neves e Marina Silva. Com o barco de Aécio à deriva a três dias da votação, a revista adiantou a edição de sábado para sexta com a seguinte capa: "Lula e Dilma sabiam de tudo ".  O tudo era ilação. O TSE concedeu direito de resposta ao PT. Tarde demais. O estrago estava feito.

A entrada de Marina Silva na disputa depois da tragédia com Eduardo Campos anunciara dias difíceis para petistas e tucanos. Marina Silva tinha o capital político de 2010 e ocupava o espaço de terceira via. Aécio Neves entrou em queda livre e bateu a casa dos 14 pontos. O mineiro se viu isolado e fadado a pagar o maior mico tucano da história. As pesquisas apontaram Marina Silva empatada com Dilma no primeiro turno e à frente da petista no segundo. Tragédia anunciada.

A candidata do PSB se desfez de convicções de esquerda que fizeram dela a patrona da esperança e rendeu-se ao ruralismo e ao conservadorismo pentecostal. Fatal. A candidata enrolada num novelo de incoerências e nos fios de cabelo implantados de Silas Malafaia virou saco de pancada das esquerdas. Marina Silva colaborou com a desconstrução imposta pelo PT contra sua candidatura. Caiu. Dilma cresceu um tiquinho e Aécio Neves recuperou os votos perdidos para Marina e o patamar tucano de eleições anteriores, com isso, o mineiro alcançou o segundo turno com o bico encostado na nuca de Dilma Rousseff. 

O empate técnico persistiu nas duas primeiras semanas de segundo turno. Com a avaliação positiva da presidente Dilma em crescimento, o PT virou o jogo na semana derradeira. A propaganda do PT vendeu bem os ganhos reais dos brasileiros nos anos de petismo e procurou assustar o povo com o fantasma do neoliberalismo ao qual tucanos ainda se agarram. Lula entrou em campo e como sempre fez a diferença. O PT venceu nas plagas mineiras onde a maioria disse NÃO ao PSDB ao dar a Fernando Pimentel a vitória em primeiro turno e vitória a Dilma nos dois turnos. Vencer em Minas foi o gol de placa decisivo.

Aécio Neves obteve o melhor resultado da oposição desde 2002. Resultado esperado face ao processo de desconstrução sofrido pela presidente desde 2010 e ao clima mudancista turbinado pela mídia por mais de dois anos, com direito a agigantamento do fantasma da inflação e terrorismo do mercado especulativo. Mais: o tucano perdeu com regalias que seus colegas de partido não tiveram em 2002, 2006 e 2010. Aécio foi derrotado com apoio do candidato da terceira via no segundo turno, com a economia em baixa e com aliados a pularem do navio de Dilma para o seu. E pior: Aécio perdeu em casa. Reitero: nem tudo que reluz é ouro.

É importante frisar os desacertos da condução política do governo Dilma. O caráter centralizador da presidente jogou PTB e fatias importantes do PMDB e do PR no colo da oposição e isso custou deserções em palanques regionais que turbinaram a votação de Aécio Neves. O tempo também foi inimigo do PT. Os doze anos no poder geraram fraturas na frente de esquerda e levaram o PSB a concorrer à presidência da República, a rivalidade criada com Marina Silva durante o processo eleitoral jogou a maior parte dos "socialistas" no colo do tucano. Os canais de diálogo do governo com empresariado e movimentos sociais também falharam.  

Em suma, Aécio Neves contou com as melhores condições que um candidato de oposição teve desde 2002, não venceu. Dilma enfrentou suas limitações de comunicação e o amplo contexto negativo já descrito, por isso sua vitória foi maiúscula. Os desafios do governo para os próximos quatro anos também são gigantescos. Mas isso é assunto pra depois.

Artigo publicado no portal Novo Momento

sábado, 8 de novembro de 2014

Política não morde

Análise da crise política de Americana

Com as adesões do PSDB e do PV, o arcabouço político de Omar Najar fica cada vez mais parecido com o que deu sustentação a Diego De Nadai durante a maior parte de seu governo.

Caso seja eleito, o desafio para o empresário Najar será aplicar seu "choque de gestão" com tantos aliados a orbitar sua seara política. Não será fácil. Haverá, de certo, um choque entre discurso e prática. Custará.

Recuperar a saúde fiscal da prefeitura de Americana é um desafio que está posto e tem sido enfrentado pelo atual prefeito tampão Paulo Chocolate. É legítimo que o futuro governo aprofunde tal processo, mas isso nada tem a ver com redução drástica da máquina pública ou negação da política.  A questão não está na quantidade, mas na qualidade.

Não há drama em dividir espaço com aliados e sim em fazê-lo sem critério. Os cargos têm de ser distribuídos com base na capacidade técnica e política dos indicados e de acordo com os desígnios do projeto que dará direção à gestão.

A maioria dos governantes brasileiros chega ao poder sem projeto e sem rumo pré-definido. Eis o nó górdio.

Mário Covas assumiu São Paulo em 1995 com os intuitos de tirar o estado da UTI fiscal e aumentar investimentos sociais. Havia rumo. Lula e FHC governaram acossados pela fisiologia, contudo, seus governos tinham prioridades: o primeiro reduziu a desigualdade social por meio de políticas públicas e fortalecimento do mercado interno; o segundo controlou a inflação e reestruturou o Estado o quanto pode.

Os concorrentes à prefeitura de Americana terão de deixar claro pra quê querem ser prefeitos, isto é, em torno de quais ideias, propósitos e projetos. Eis o desafio.

POLÍTICA NÃO MORDE

A prefeitura de Americana não é uma empresa. A governança pública respira em função da capacidade dos atores políticos realizarem acordos e definirem estratégias e canais de diálogo com a sociedade.  Cargo técnico, concursado, comissionado, não importa, o sujeito terá de fazer política. Com ou menos vereadores. Com ou mais secretarias. Política não morde, mas fugir dela (ou fazê-la parcamente, como no governo anterior) pode ser letal.

Publicado dia 9 de novembro no Portal Novo Momento. Clique aqui

A chance

A capacidade de construir pontes é uma das virtudes de Aécio Neves. E não estou a falar de viadutos, mas de sedução de aliados. Tal capacidade poderá fazer diferença para o tucano esvaziar a base da presidente tirando dela o apoio do PMDB em estados onde o partido rivaliza com o PT bem como na confirmação de uma composição com Marina Silva e apoio peremptório do governador Geraldo Alckmin.
 
Aécio Neves comprometeu-se com Alckmin e Marina pelo fim da reeleição. Os dois serão beneficiados com a medida porque a sucessão de um eventual governo Aécio ficaria em aberto. O compromisso também interessa a José Serra, eterno postulante a candidato à presidência da República e histórico defensor do fim da reeleição. A costura visa unir pra valer o PSDB paulista em torno da candidatura Aécio Neves.
 
O PSDB reúne as melhores possibilidades de voltar à presidência desde 2006. As munições do PT estão limitadas. Dilma não é Lula. O Brasil não é o mesmo. Chicotear FHC talvez não dê desta feita o resultado esperado. Há uma geração nova que não viveu aquele tempo e não se contagia com a comparação. O PT terá de fazer mais e melhor para repetir os desempenhos de 2006 e 2010.  
 
O Partido dos Trabalhadores levou do PSDB uma paulada monumental em São Paulo. Aécio Neves tem tudo para virar em Minas, ganhar no Sul, Centro-Oeste e ampliar a vantagem no Sudeste. A família Campos, com Marina a tira-colo, poderá ajudá-lo a diminuir o estrago em Pernambuco, e até a virar. O governo Dilma exibe problemas de avaliação e a presidente de comunicação. No campo subjetivo, os ventos mudancistas sopram agora na direção do tucano.

Aécio Neves não é arquiteto das condições políticas que parecem favorecê-lo. O mineiro  não é vendedor de esperanças. Não tem conteúdo político brilhante. Vale-se de bastidor. Aguarda. É mais raposa que Leão. Quase pagou caro por isso ao namorar a não ida ao segundo turno, todavia, a desidratação de Marina Silva levou Aécio a amealhar votos que o PSDB tradicionalmente angaria e a ocupar o espaço de novidade contra uma Dilma vulnerável.
 
Não dá pra negar, a fortuna bateu à porta do tucano, resta saber se ele terá virtú para aproveitá-la.

Publicado no Portal Novo Momento  Dia 08 de outubro/2014

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A queda

Há quem diga que Marina Silva está em queda nas pesquisas porque tem menos tempo de TV. Resposta simples e conveniente. A questão é mais cascuda.

A base eleitoral de Marina é composta basicamente pela juventude e setores progressistas decepcionados com o PT e à procura de uma alternativa à esquerda. Com Aécio à deriva, parte do eleitorado anti-petista migrou para a embarcação do PSB. 

Entretanto, inflexões à direita murcharam o capital político da santa. A equipe do PSB mudou o programa de governo no capítulo sobre direitos humanos face a críticas disparadas por Silas Malafaia no twitter. Silas gritou e Marina disse "amém-irmão". Na área econômica o programa de governo da candidata flerta com a agenda liberal e justifica sua aliança com a herdeira do Itaú Neca Setubal. Somam-se a isso as declarações desencontradas de Marina Silva a respeito de temas caros ao progressismo, como casamento gay e lei de anistia, e suas concessões precoces ao ruralismo.

As inflexões à direita da ungida de Neca Setúbal afugentaram a base de esquerda e enfraqueceram a santa a ponto de agora o eleitorado anti-petista retornar pouco a pouco ao ninho tucano.

Marina Silva na atual conjuntura corre sérios riscos de ficar fora do segundo turno. Seu arsenal de contradições atingiu em cheio a embarcação do PSB. Parte de seu eleitorado já vê no bote salva-vidas de Aécio Neves uma chance de evitar naufrágio precoce. 

O PT soube explorar as contradições da principal adversária e vender as conquistas sociais do governo federal. Dilma lidera e é favorita a vencer no segundo turno além da possibilidade cada vez maior de ganhar ainda no primeiro. E pensar que Dilma passou por graves momentos de desidratação política, inclusive no começo da campanha, mas com adversários incautos e um PT que sabe aproveitar seus pontos fortes e surfar nos pontos fracos dos adversários, Dilma mantém-se à frente. 

Favoritismo não garante vitória. Até mesmo Marina Silva em queda pode reagir. Ou Aécio surpreender. Eleição só termina quando acaba, todavia, o quadro eleitoral mostra os adversários da presidente a tropeçarem nas próprias canelas. 

Publicado no Portal Novo Momento dia 29 de setembro de 2014. Clique aqui

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O primeiro impacto


Constatação: Marina Silva impõe medo a petistas e tucanos. Aécio Neves é o que tem a perder primeiramente. Dito isto. 

As FORÇAS de Marina e os LIMITES tucanos:

1 - Há um desgaste com o processo político evidente já na eleição de 2010 devido à estupenda votação de Marina Silva e à não menos espetacular abstenção eleitoral no segundo turno. Eleitores trocaram a urna pela praia, a urna pela cerveja quente, a urna pelo peixe assado na laje etc.

2 - PT e PSDB hegemonizam a disputa pela presidência há vinte anos e, para se manterem firmes nas querelas, fizeram os acordos que o atual sistema político exige - tanto para disputar pleitos quanto para governar. As duas legendas não estão liquidadas, evidentemente, mas no centro do desgaste, quando o assunto é eleição presidencial.

3 - Sem a vermelhidão e a aspereza de Heloísa Helena, Marina Silva apresentou-se em 2010 como uma espécie de terceira via "segura" e "abrangente". O discurso dela contem pitadas de conservadorismo - por conta de sua religião - e doses de urbanidade, porque enfatiza questões ambientais e de "nova política", caras à juventude e à "certa" classe média, digamos, "antenada" e formadora de opinião.
As manifestações 2013 aconteceram basicamente em função do divórcio do cidadão com o sistema político e Marina é vista como a principal candidata "contra tudo isso que está aí". Portanto: a ambientalista tem para 2014 o recall acumulado desde 2010.

4 - Aécio Neves é quem perde espaço logo de largada. O tucano não é figura nacional e se apresenta como alternativa - apesar de seu partido já ter sido testado por oito anos na presidência e conhecido em vários estados. A lembrança do segundo mandato de FHC, duro para os mais pobres, pulsa negativamente mais que os desgastes "morais", sofridos pelo PT, e gerenciais, sofrido pela Dilma. O PT prefere mil vezes disputar o segundo turno com um tucano.

O MEDO petista

Primeiro ponto: Marina Silva garante segundo turno. Dificilmente o PT não estará nele. A pesquisa de hoje mostrou que Dilma não recuou e Marina passou Aécio, que também não recuou, mas ficou em terceiro. Dilma está isolada, com 36, Marina, 21, Aécio, 20. Prova 1: Aécio tem a perder, primeiramente.

Segundo ponto: Hipotético segundo turno do PT contra Marina Silva impediria os petistas de fazerem a tática plebiscitária que consiste na comparação de seus anos com os anos tucanos na presidência. Marina Silva aparece à frente de Dilma nas pesquisas para o segundo turno. Marina com certeza levaria a maioria dos votos tucanos, em geral, antipetistas.


O jogo está longe de ser encerrado, mas a trágica morte de Eduardo Campos levou Marina para o centro da disputa e poderá levar a viúva Renata Campos para o posto de vice. Dose dupla feminina,  comoção, recall de Marina e os limites de petistas e tucanos. Nunca antes na história 'deste país a polarização de petistas e tucanos esteve tão ameaçada. 

Marina Silva e a mistificação


Causa-me espanto a visão sebastianista em torno do nome de Marina Silva. Prova de despolitização. Mais uma.

Não estou a discutir voto. Jamais o farei neste espaço.

Contesto a ideia simplista de que Marina Silva fará da política e do país dois paraísos livres de seus velhos vícios. O resultado desse processo será uma evidente decepção porque seu ponto de partida é equivocado.

A política do país será hipoteticamente melhor se passar por reformas estruturantes profundas, e ainda assim a coisa só vai avançar se a sociedade tomar injeções de cidadania ativa, em contraponto ao individualismo consumista, marca cultural predominante das sociedades de mercado que retira - para o bem e para o mal - vigor coletivo da sociedade.

Marina é só uma célula do processo social. Importante. Porque promove o debate a respeito de novos valores e novo modus operandi para a política nacional. Mas jamais a salvação da lavoura.


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terça-feira, 8 de julho de 2014

REPENSAR

Pergunta: me aponte um meia e um centroavante para os lugares de Oscar e Fred? Não conseguiu, né? Há vinte anos a lista passava de 6 em cada posição. 

Escrevo desde a era Dunga que esta é pior geração desde 1958.

Felipão era a experiência para toldar o elenco da pressão e fazê-lo jogar com competitividade e aos trancos e barrancos. Deu certo na Copa das Confederações. Mas no meio do caminho havia um projeto. No meio do caminho havia uma Alemanha. No meio do caminho havia uma seleção fria e sistemática. No meio do caminho havia uma seleção que apanhou em 2006 em casa, em 2008 pra Espanha na Euro e de novo em 2010 pra Espanha na Copa e pra Itália na Euro em 2012. E manteve o treinador de 2010. 

No meio do caminho havia um país que recuperou seu campeonato nacional e passou a revelar jogadores a granel. No meio do caminho havia um país organizado, o único que tem economia de pé em meio a um continente europeu economicamente em pedaços.  

O remendo fracassou contra um time infinitamente melhor. Com infinitas opções no meio-campo e com jogadores que se conhecem de olhar. Um remendo nervoso que quando toma o primeiro gol entra em transe, só que no meio do caminho desta vez não eram Chile nem Croácia, no meio do caminho havia a melhor seleção dos últimos dez anos. 

Um futebol sem a magia do brasileiro. Mas organizado e resultado de um projeto sistemático. 

Foi no remendo que o Corinthians chegou ao topo contra um Chelsea costurado. Aliás, o Chelsea venceu o Barça assim, com 12 na zaga. Foi no remendo que o Inter venceu o Barcelona em 2006, com 14 na zaga. Foi no remendo que o Palmeiras venceu a Copa do Brasil em 2012, com 14 na enfermaria. Mata a mata esconde problemas estruturais, o resultado do Palmeiras no brasileiro do mesmo ano não me deixa mentir. 

Não dá para vencer sempre com coração.  

O problema não é tático nem individual. Felipão convocou os melhores, e os melhores de 2014 não se comparam aos melhores de 2006, 2002, 1998, 1994 e assim vai até 1950, ou quem sabe até 1930. Vocês falam em Lucas e Kaká, fariam grande diferença? Kaká não tem mais mercado na Europa. 

O futebol brasileiro está a cavar um buraco sem fundo há mais de uma década. Kaká foi o último brasileiro melhor do mundo, 2007 (7 anos atrás). Um ano depois da geração 2006, a última que tem alguma coisa a ver com futebol brasileiro. Clubes grandes na série B, ano atrás de ano. Com exceção do Santos (quebrado financeiramente), ninguém mais revela craques. 

O Brasil há muito é mero exportador de pé de obra. E agora começa a vender para mercados inferiores como Ucrânia e China, porque europeus como Espanha e Alemanha estão a revelar jogadores com facilidade. 
Possuem estrutura e projeto.  

O problema é ESTRUTURAL. Torcedor falar bobagem em rede social, ok. Mas esse debate passa ao largo na prensa esportiva, com exceção da Espn-Brasil, especialmente o jornalista Paulo Vinícius Coelho. 

Jornalistas vão buscar respostas em mesas táticas, e as respostas estão nos estádios vazios durante os campeonatos estaduais e o brasileirão. O Brasil não revela jogador como revelava há 15 anos. Os talentos não sumiram, o problema está no garimpo, anti-profissional e descolado de um projeto amplo, com olho no social e no país. 

Este é o debate que gente séria envolvida com esporte e política (sim!)precisa fazer, urgente.